Você é o curioso...

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    ''O direito a ser iguais, quando a diferença nos inferioriza; o direito a ser diferentes, quando a igualdade nos descaracteriza''.

Informação geral.


Depois de algum tempo tendo problemas com o blog, hoje dia 17 de Setempro de 2013 eu consegui arrumar o lealt e o template. Estarei postando alguns textos que já tenho pronto. E para deixar bem claro, todos os textos que aqui são postados são registrados por data e hora de postagem pelo blogspot que faz parte do google.com. Os textos que não são de minha autoria terão o nome do autor em baixo do texto em questão. Já os que não têm nome por logica devera ser os meus. Espero que gostem do blog, e agradeço se puderem comentar as postagens.

Grato: Welder Campos Rodrigues.

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Paixão de festa, dança, amor e fuga!



E num requebrado, tornou-se dele a Marie Belath. Ele? Seu eterno namorado. Eterno sim. E em seu quadrado, pôs-se a suspirar por aquela dama de cetim.
Ela alternava entre Elvis, entre Maysa, e à lá Carmem e requebrava. Sangue fervia. E ele pobre coitado a almejava, aplaudindo ao final de toda louca melodia.
Ao findar das canções, o espaço esvaziou-se e quase todos os corações, sobraram dois. E sem uma ou duas razões, Marie aproximou-se três segundos depois.
E o music bar foi insuficiente para tanto sangue a pulsar.
Tudo tão sem defeito.
De ardor encheu-se o ar. Queria-o mais que tudo, queria-o de todo jeito.

Eis que então, beijaram-se de súbito, rangendo os lábios de paixão.
Foi intenso, Maria afagou-se com um lenço, num minuto imenso.

- Como chamas?
- Miguel, que há muito tanto amas.
Ela o olhou surpresa. Ele a ignorou com um beijo ao som do blues.
Como toda artista, tinha Marie um camarim na periferia de sua vista. Como num cinema, Miguel, um ensaísta, ofereceu um Vogue para uma noite plena.
Uma noite indecente foi embalada pela paixão de um casal carente.
Marie disse please. E em sua mente, Miguel sossegou-a até sorrir feliz.

Amanheceu, e o coração de Miguel a musa de cetim se esqueceu.
Porque o amor logo se move quando em tudo chove.

Marie voltou ao Rio.
Miguel sorriu.
Marie fugiu do norte.
Não teve sorte.
Marie cantou Come Back, e abriu um leque, para lembrar-se de Miguel.

Tenha fé, o sol está logo ali.



Está claro, quente, queimando. Sabe, o frio faz isso, o frio queima.
Ele queima a pele, queimam as folhas, queima a alma.
O rigoroso inverno reina soberano em dias imprevistos, em horas indesejadas.
Era para ser verde porem está cinza.
A transparência da água de alguns lagos desaparecera de baixo das densas camadas de gelo, que mais parecem icebergs.
As flores secam em suas hastes em posição vertical, e a neve adentra e congela tudo o que tenta se mover.
O sol desapareceu atrás de grandes nuvens e a desolação do soldado parece eminente. Não, não se renda jovem soldado, o mundo está ai para você, o mundo é seu. Esse é o seu mundo.
Esse mundo é suas escolhas, então escolha bem.
Seja forte meu caro, mesmo chorando, seja forte mesmo queimando, pois o inverno passa, assim como todos os próximos. Você não irá morrer, pois em seu mundo você é imortal, e nada mudará isso, você será capaz de enfrentar tudo, e não há quem diga o contrário,
Você é corajoso e forte meu jovem.
Meu caro amigo, você pode, é só ter fé.

Você romperá barreiras, atravessará oceanos, e novamente terá a ternura do verão aos seus pés, e o toque morno da primavera em seu pescoço.

Soldado de chumbo e boneca de plástico, o que isso iria virar ?



Ele não podia dispensar a cervejinha de sexta-feira com os amigos. Ela era movida a café enquanto via a novela.

Ele amava os filmes de bang-bang. Ela só ia ao cinema para ver algo cult.

Ele sonhava em ter cinco filhos e ensiná-los a atirar de estilingue, jogar futebol e paquerar as garotinhas. Ela queria um filho único - pra ela, pro mundo.

Ele esquecia datas e aniversários. Ela fingia que não lembrava, mas tinha suas sobrancelhas arqueadas para qualquer ah em tom sonso.

Eles brigavam, tanto quanto um homem e uma mulher podem brigar. Ele dizia que seu maior defeito era amá-la. Ela dizia que o amava com todos seus defeitos.

Ninguém acreditava neles. Nem eles mesmos, se isso servisse de consolo. Opostos se distraem, dispostos se atrem - é o que diziam, os abutres de plantão e o Teatro Mágico.

Porém, como cada relógio numa maquinaria perfeita tinha suas engrenagens, o amor deles era essa bomba-relógio. Perfeito perigo, veneno doce. À noite, debaixo das cobertas, ela dizia que não entendia como eles podiam se amar. Pela manhã, ele dizia que não havia como não se amarem.

E nesses opostos, que muitas vezes se distraiam com desigualdades, estava o encaixe perfeito de um eles, sem caber de imaginar. Ele nem desconfiava que tinha um pedaço dela, e ela sorria ao ver que ele estaria sempre consigo.

Sobre uma garota e seu nômade interior, e a única herança deixada para o mundo.




Era uma vez... uma garota dentro de um caminhão. Tinha um volante no horizonte e um motor no coração. Ela não entendia o porquê que em sua vida lhe faltava constância. Vivia cheia de liberdade, até que a ânsia nasceu. Não ânsia de viver ou de se libertar. Era ânsia de paz, ânsia de ser um lar.
Fazia paradas para vomitar. Sentia-se mareada só em sentir o cheiro do mar. Lentamente, um mundo com um único habitante brotava em sua barriga bronzeada, sutilmente uma vida se formava, deixando-a despedaçada. A vida lhe trazia medos, lágrimas escorriam. Sua alma era viajante, não tinha outro dom. Percorria a vida cantando sem perder o tom: Um passo sem pensar, um outro dia, um outro lugar.
Até que um dia, seu corpo desabou um vento forte soprou e a bolsa estourou. Pode não parecer, mas até que doeu. E então, um novo humano saiu e gemeu. Sim... agora era mãe e um pai também. Sabia que para ela a vida não diria amém, a pequena criança era bonita e tinha os olhos verdes. Viveria uma vida esquisita em meio ao som do blues e do rock.
A mãe não tinha cuidado, vivia em função de um ou outro namorado, gostava das noitadas e de toda boemia. Gozava nas viradas de ano, e era só poesia. E quando acabava, pedia mais, pedia mais, pedia mais.
Dizia please. Mas bem lá no fundo, a verdade era que ela queria era bis.
E o bebê sorria.
Sorria com o sorriso de fotografia.   
A vida para ele, era festa e o sangue lhe fervia. Fizera oito anos e odiava maresia, em uma noite sombria punha-se a rodar pelas ruas vazias do centro de mais uma cidade desconhecida. Até que um dia, veio-lhe a fúria e a incomunal rebeldia.
O garoto fez a temível injúria para a vida que ruía. Fizera então, 15 anos e cansara-se das noitadas à beira-mar. Deu adeus as namoradas e aos namorados, e ao seu nômade lar.
A vida lhe chamou e ele foi lá.
A mãe o ignorou. Disse:
 - Vai.
O filho foi e lá voou.
Não mais garota, em seu caminhão pôs-se a dormir. E, com um novo amante, a sorrir.
Até que acabou-lhe a sorte.
A Garota do Caminhão chegou em seu leito de morte.
Um câncer lhe destruiu o coração em um só corte. Morreu abraçada a foto do filho fugido.
E ele, no Triangulo das Gerais, nunca soube que sua mãe tinha morrido.

Sobre olhares, amor à primeira vista, sonhos compartilhados e o adeus ao amanhecer!



E no meio da multidão os olhares se entrecruzaram.
Histórias tão diferentes bailavam na marchinha insistente no imenso palco da ilusão. Sorrisos, abraços, carinhos, desejos espalhados em confetes e serpentinas, amores trocados, vidas por um instante desprendidas da rotina incansável daqueles portadores de coração. E no meio disso tudo um encontro de dois sonhos, dois anjos, dois amores enternecidos e ávidos de paixão.
A bailarina cor de rosa e o triste mosqueteiro. Duas vidas tão diferentes, no entanto naquele exato momento foram capazes de paralisar o mundo só pra se olharem mais um pouco. E as mãos dele escorriam pelo braço dela enquanto ela de encantava com o sorriso dele. E eles voaram feitos pássaros deixando pra traz a multidão. E lá no céu entre nuvens se amaram feito anjos até o dia amanhecer.
E pra nunca mais se perderem de despediram trocando seus sonhos. Na lapela do uniforme, ele vai embora com a rosa dela e sobre seu corpete cor de sangue, ela vai com a medalha dele.
Até hoje a bailarina ao se olhar no espelho ainda enxerga os olhos dele e ele sempre diante de uma flor sente o perfume dela.
Quem sabe um dia eles se encontram nessa vida tão corrida e de dois sonhos compartilhados se tornem apenas um realizado.



Um amor de toda vida!


- Ana, minha rosa...
- O que é que te tira o sono dessa vez, José?
- Não sei, minha querida, já faz alguns dias que ando assim, a encarar o teto sem cor da noite, abrindo e fechando os olhos sem ter porque.
Ana silenciosamente virou-se na direção do marido, levantou a cabeça a fim de enxergar algo em seu rosto com a luz amena que vinha da rua, mas nada pode ver. Deitou-se novamente e ficou a encarar o teto sem cor da noite.
- Ana?
- Não te entendo José... Essas tuas rugas parecem não condizer com o teu coração. Coração jovem, parece que tão pouco sabe da vida.
- Agora eu que não entendo o que dizes meu amor. Eu amo as tuas rugas, nunca reclamei delas uma vez se quer!
- Pare de bobagem, velho querido. Tem tristeza no teu coração, dá pra sentir.
- Ana, como podes me conhecer tão bem assim? Mal eu sei porque essa maldita tristeza afoga meu peito.
- Venha cá, meu amor.
E José foi, esquecendo-se do breu que cobria o quarto e tentava esconder aquelas três ou cinco lágrimas que escorriam, e afogou-se no peito de sua eterna Ana.
A dor do tempo bateu em sua porta, as angústias de um devaneio qualquer lhe atormentou e deixou o homem de rugas nem tão sábias assim perdido em seu próprio sentido.

Ana não sabia muito bem o que aquelas gotas que caiam em seu braço significavam e passou aquela noite sem dormir, escutando o seu velho respirar de forma nervosa, sem saber ao menos o que pensar. Ficou com medo e suas rugas, assim como de seu amado, exalavam também as preocupações tolas daquela noite, daquela vida.

Dedico este texto aos meus avós maternos, Ana Rosa Campos e José Dias Campos.

Uma criança, loucura, e chocolate!


Eu queria ser poeta. Mais sou apenas um contador de historias.


Quando eu ainda estava no ensino fundamental, uma vez no recreio, comendo um chocolate derretido, pensei isso, pela primeira vez: E se eu ficasse louco?
Vi meus amigos trocando papéis de cola para a prova, vi uns meninos correndo de testa suada, vi uma professora caminhar como alguém que pensava em alguém que ela encontraria no final do dia, vi tudo isso como se não pudesse ter, ver e ser.
E se eu ficasse louco.
Que triste para meus pais, que triste para a carteira vazia da escola, que triste para os livros plastificados com a etiqueta que dizia quem era eu.
Um estudante, um garoto, com família, amigos, tênis sujos, camisas brancas com o brasão da escola.
Se eu ficasse louco tudo isso seria o quê? Pra onde iriam os materiais e as pessoas e o amor?
E se eu ficasse louco?
Quem iria me ver babar num canto de um hospital? Existe louco em casa? Mãe ama os loucos? Louco tem amigo? Louco tem livro plastificado? Louco começa e não para mais até acabar? Louco uma vez, louco pra sempre?
Converse. Respire. Pense. Pense. Vamos. Não fique louco. Mude de assunto.
Dê nome pra loucura que ela deixa de ser. Sinta dor com nome que assusta menos. Caia na aula de educação física, rale o joelho, sangre, dói menos. Desembarace os cabelos e sinta que problemas se alisam.
Faça o papel do chocolate virar um barquinho. Isso. Conte uma piada. Se os outros rirem bastante. Se a sua estranheza puder ser amada. Qualquer coisa menos loucura. Pense naquela música da rádio.
Não, você não está triste.
Uma fofoca e pessoas em volta. Vá até o banheiro molhar o rosto. Os outros. Olhe. Os outros. Vamos. Que data mesmo? Da guerra. Que data? Qualquer coisa. Menos louco. O hino. Sujou um pouquinho a meia limpa.
Dê nome aos problemas. Problemas com nomes são problemas e não loucuras.
Não caia duro no meio do mundo. Não se chacoalhe no meio do pátio. Não vomite só porque sei lá o que é isso impossível de digerir e nem quero saber.
Não abrace sem fim porque é preciso sentir o vento com o peito sozinho. Terrível mas tem banho quente pra distrair.
Não espanque, não soque, não chore sangue, não arranque a língua, não grite, não acabe.
Siga. Sorria. Mais uma prova. Mais uma festa.
Sempre um pavor escondido mas nem era nada disso. Sempre uma tristeza abafada mas nem era nada disso.
Sempre uma alegria exagerada que ninguém acolhe e o silêncio depois, fazendo curativos na pureza criando cascas.
Um dia você será. O quê? Normal. Um dia você será. Normal. Um dia. Enquanto isso se distraia como a professora que ama, as crianças que trocam papéis de cola, os garotos que correm. Eles estão se distraindo também e pensando: Olha, um menino comendo chocolate.

Uma vida de amor, para que nunca se esqueça que o amor verdadeiro existe.



Eu queria ser poeta. Mais sou apenas um contador de historias.



Em meados dos anos 50, em uma cidadezinha pequena, em algum lugar do Brasil, onde os detalhes não importavam e as pequenas coisas prevalecem sempre. Encontrava-se Antônio, mais um trabalhador árduo, desde jovem sempre trabalhou na roça, em condições humildes.
Ele nunca se importou com as coisas de maior valor, assim como muitos que vem de cidade pequena. A família nunca se importou com ele.
Não sabia ao certo o que significava família, nem de longe.
E Judith, uma jovem da cidade, que assim como Antônio, trabalhava desde cedo. E que vivia por conta própria.
Todos nós estamos cansados de ouvir essas histórias de nossos pais ou avós. De como antigamente trabalhavam desde pequenos e tinham que ter independência.
Não era diferente com eles.
E inevitavelmente, eles se conheceram.
Antônio encontrou a parte que lhe faltava em Judith. E Judith encontrou a paz que lhe faltava em Antônio.
Essas coisas de sempre. Vem à amizade, a paixão e o amor. Ambos não sabiam o que era ter alguém ao seu lado, não sabiam o que era ter alguém para contar, para conversar, para cuidar. E foi exatamente por isso que eles se deram tão bem.
Trabalhavam cada vez mais, e também se apaixonavam cada vez mais.
Antônio fazia questão de todos os dias, levar uma rosa que roubava de um dos vizinhos da região para ela. Era algo errado, pelos motivos certos.
Em certo dia, ele comprou um radio, e eles passavam as noites ouvindo musicas do Elvis Presley, cantando e dançando.
Judith nunca se importou que ele não soubesse dançar. E Antônio nunca se importou que ela não soubesse cantar. Mas eram as noites mais felizes e bonitas de ambos. Em uma dessas noites, Antônio havia esperado Judith, como fazia todos os dias, e lhe disse que tinha uma surpresa.
Levou até um dos lagos da cidade, entregou a rosa do dia, mas com uma diferença, um bilhetinho pequeno, escrito com a sua letra, um garrancho, melhor dizendo. E nele estava escrito “ Sei que não sou um cara charmoso, rico ou maravilhoso, mas deixa eu te mostrar que posso te fazer feliz? Eu não vou precisar de nada disso para fazer isso. Foge comigo e vamos construir a nossa família? Deixa eu te cuidar? Se você quiser, se meu amor bastar.”
Judith, sem palavras, olha fixamente para frente, quando vê Antônio dizer.
- Aceita casar comigo?  
Ela, quase que imediatamente, responde.
- Eu aceito.
Algumas semanas depois, estavam os dois, juntando suas malas, e o pouco de dinheiro que tinham, foram embora para a cidade grande.
Eles mal sabiam por onde começar. Foram para a igreja, e mesmo que sem familiares, trataram de logo casar.
Assim que o padre terminou a pequena cerimônia, ele chegou à parte. 
- Judith, você aceita Antônio em casamento, prometendo amá-lo, respeitá-lo e ser fiel, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, por todos os dias de sua vida, até que a morte os separe?
- Eu aceito.
Repetiu o processo com Antônio, terminando com ele respondendo.
- Eu aceito.
E o padre terminou dizendo.
- Eu vos declaro, marido e mulher, pode beijar a noiva.
Antônio beija Judith intensamente, ela olha para ele e diz.  
- Até que a morte nos separe Antônio. Eu te amo.
E Antônio, sem pensar duas vezes, diz.  
- Até que a morte nos separe Judith. Eu também te amo.
Aos poucos, eles foram se acertando, passaram por grandes dificuldades, é verdade. Mas o amor forte e intenso que sentiam um pelo o outro, parecia superar qualquer barreira e dificuldade que fosse. Logo Antônio conseguiu um bom emprego, trabalhando em uma fábrica famosa de carros, e em pouco tempo, já estava comprando um terreno e construindo a casa que tanto sonhara ter com Judith.
Assim que terminaram a construção da casa, vinha o primeiro bebê. Eles nunca tinham ficado tão felizes.
Ele cuidava melhor do que nunca de Judith e do bebê, comprava tudo que ela tivesse vontade, e se dedicava cada vez mais no trabalho. Com o nascimento e a alegria que o bebê trouxe, eles olharam para si mesmos, e descobriram, finalmente, o que era realmente uma família.
Um encontrou no outro a resposta para o que ambos haviam buscado. Família era ter os seus sonhos, medos, desesperos e dificuldades compartilhados e acima de tudo, ter um ao outro. Mesmo que tudo lhes faltassem, o importante eram eles se completarem.
Dois anos depois, o segundo filho chegou. E dois anos mais tarde, o terceiro.
Eles eram uma família humilde, porém de um caráter admirável. Criaram os filhos de uma forma justa e correta. Embora tivessem passado por coisas difíceis, os filhos cresciam felizes e sempre sorrindo.
Cada filho foi crescendo, se tornando homem ou mulher, e aos poucos, foram atrás de fazer o próprio futuro.
Antônio e Judith haviam criados filhos maravilhosos e se orgulhavam todos os dias por isso. Eles também, de certa forma, criaram os netos que viriam a seguir.
Porque muitos passavam mais tempo na casa dos avós do que em suas próprias casas. O que era natural, vendo que os dois tinham jeito para isso.
Antônio sempre soube que Judith era o amor de sua vida e era algo encantador de se ver. Mas assim como o tempo passa, a velhice chega.
E é claro, com ela vêm os problemas de saúde. Judith sentiu isso na pele. Vítima de um AVC, mais conhecido como derrame, que normalmente, deixa sequelas em quem as têm.
E não foi diferente com Judith, que havia perdido os movimentos do braço direito e da perna direita. Ela, que sempre ousou de cuidar de sua casa sozinha, lavar as roupas, fazer comida, uma mulher incrivelmente independente. Agora, se via tendo que depender de outras pessoas para arrumar a casa, cozinhar e lavar roupa. Até para andar precisava de ajuda.
Antônio sofreu junto com ela, cada dificuldade e problema que ela passava. Ele chorou junto, cada lágrima que ela derramava. Ele esteve com ela todo o tempo.
Levando-a para a fisioterapia, todas as tardes, mesmo que estivesse cansado para muitas coisas, ele sempre estava disposto para ela no momento em que necessitasse.
E aos poucos, ela foi melhorando, e quem pensa que ela desistiu de cuidar de seus afazeres?
Pouco a pouco, ela foi voltando às rotinas de sua casa, da sua maneira, mas ela limpava, cozinhava e lavava. Usando apenas um dos braços e uma das pernas.
Com alguma ajuda de vez em quando e para algumas coisas. Ela era um exemplo. Que mesmo depois de passar por tempos difíceis, ainda assim, lutava para não perder a capacidade de ser independente, para não se sentir inútil.
E com certeza, isso ela não era, nunca foi. E assim foram nos últimos dez anos.
Antônio levava Judith para a fisioterapia, para o médico ou simplesmente media sua pressão. Ele estava lá. Pronto para socorrer a qualquer momento. E nunca deixaram de estar juntos, nunca deixaram de se amar e se respeitar. Até que um certo dia ela foi hospitalizada, mais uma vez, com um segundo derrame.
E o estado dela foi se tornando cada vez mais grave. Antônio tornou a levar uma rosa para Judith todos os dias em que passara no hospital, assim como fazia quando roubava uma rosa do vizinho, mas dessa vez, ele apenas fazia algo certo por motivos mais certos ainda.
Aos poucos a situação de Judith foi piorando, e em uma das noites em que estava no hospital com Antônio, ela disse que não aguentava mais, mas tinha medo de deixar ele sozinho, porque ela sempre havia se preocupado mais com ele do que consigo mesma. Antônio disse para que não se preocupasse, mas sim, que se fosse chegado a hora dela, apenas vá em paz.
Ele mesmo, não aguentava mais ver a esposa sofrer todos os dias. Ela olhou para ele, apesar do olhar enrugado e mais velho, ainda assim, o mesmo olhar apaixonado de quando se conheceram e disse.
- Eu te amo Antônio, sempre amei e sempre vou amar.
Ele segurou em suas mãos, beijou a sua testa e disse.
- Eu te amo Judith, sempre amei e sempre vou amar. Para todo o sempre.
Minutos depois ela sorriu, e adormeceu. No dia seguinte, chegava à notícia que Judith havia falecido. Junto vinha o velório e o sepultamento.
E enquanto Judith era enterrada, Antônio se aproximou do caixão e disse alto, acreditando que de alguma forma, ela o escutaria.
- Você foi a melhor companheira que eu poderia ter, durante mais de cinquenta anos. Você foi tudo para mim e sempre vai ser. Uma parte de mim está indo embora com você, a melhor parte. Nada do que eu tenha feito por ti, foi o bastante. Eu te amo, Judith. Naquela mesma noite, Antônio estava em sua varanda, em meio a um céu estrelado. Ele se lembrou da frase do dia de seu casamento. “ Até que a morte nos separe.”
E ela havia separado. Pelo menos durante a vida, pelo menos por algum tempo. Mas a mesma morte que um dia os separou, seria quem um dia os faria se reencontrar.
O amor momentâneo viverá por certo tempo, mas o amor verdadeiro viverá para sempre.
Ele tinha certeza que ainda não era o fim.
E quase sem pensar, olhou para o céu, com os olhos cheios de lágrimas, e disse.
- Até que a morte nos reencontre, meu amor.


Dedico para você meu amor esta historia.
Eu te amo e te amare ate que a morte me leve.
WCR & MERN

Festa das flores!


Eu queria ser poeta. Mais sou apenas um contador de historias.


O sol nasceu. Saiu detrás das montanhas e banhou o jardim com um calor saudável e gostoso.
A relva ainda úmida, deixando evaporar-se pela luz.
Está na hora.. começou o baile.
Dona Rosa foi a primeira a abrir. O vestido vermelho, perfumado a rigor, abraçando todo o corpo. Não era jovem, a mais experiente entre as flores. Mas quem precisa de beleza jovial tendo toda a elegância?
Logo atrás a linda fila de cores e cheiros foi-se abrindo. Todas querendo conquistar, todas tentando seduzir os milhares de insetos que adentravam o recinto.
Zumbiando, rastejando, pulando, cada um com seu gosto, cada um com seus fetiches.
Num canto meio escuro, onde a sombra se deita, a Flor Cadáver espanta as outras anfitriãs. Pobre coitada, odeia o mundo e por isso se fecha pra ele, passa o tempo e sentido inveja das demais, sai também pra dançar. A veste negra sobre a pele pálida dá o contraste até belo, os olhos irritados, pois só vê o sol uma vez por ano. Todos a olham com maus olhos, eles cochicham nas suas costas, mas há sempre um ser com gosto refinado. E quando a hora certa bate, alguns milhares de necrófilos aparecem para bajulá-la.
E entre aromas distintos e excitantes, os insetos vão fazendo a festa, mas sabendo que as flores apenas aproveitam de sua capacidade reprodutora, de espalhar por aí sua beleza futura, de fazer a espécie floral não acabar.
No meio da multidão aquela Bolsa de Pastor se destaca com seu traje balonê. Dançando, rodando, soltando beijinho e piscando, aquele típico estilo satisfatório, hiperativa atrai os mais iludidos insetos, aqueles que sonham com uma noite quente, selvagem e amorosa. O escolhido quase vai ao chão quando seu olhar bate ao dela, sendo conduzido à sua dança, nem percebe quando entra na armadilha, por isso é tão difícil de sair. E simplesmente morre feliz, bêbado e de barriga cheia. Ainda ganha um carinho antes de partir, talvez esse inseto tenha sido, realmente, o mais sortudo da festa.
Os desprovidos de asas nem sonham em tê-las, vão com seus pés no chão atrás da primeira parceira. Nunca é tão fácil, geralmente as rasteiras tem espinhos e elas precisam de proteção contra insetos insensíveis, no meio da procura olham pra cima e vêem toda aquela suruba. 
Pra quê todos esses esforços?
Acham que só porque saem do chão vão achar coisa melhor. Pobres criaturas sonhadoras.
Praqueles ganhadores que voam alto existem as cores mais lindas. Esbanjam-se.
As flores lá de cima viviam no paraíso, pois seus polinizadores eram os mais gentis e cordiais, mas com inveja delas, a Trepadeira desafia a gravidade e escala as concorrentes. Embora, mesmo lá no topo, elas não encontram pretendentes e enraivecidas estrangulam as outras pobres e recém abertas flores.
No jardim a orgia continua.
Flores usando insetos, insetos amando flores.
E o velho jardineiro apenas observava, atento as diversas flores que são a poesia e os insetos coletores os poetas.


Escolhi pintar em vez de escrever!


Eu queria ser poeta. Mais sou apenas um contador de historias.


Na panela, macarrão queimado, ele cismou de fazer artesanato, cheiro de tinta pela casa inteira.
Mesmo ali, no terceiro azulejo branco da esquerda pra direita, ali a denúncia das novidades, mancha disforme e magenta saltando a olho nu.
A vizinha segue rindo um riso esgarçado, estridente, e a televisão alta indica que o motivo do riso é igualmente patético, mas você sabe, não há nada mais triste que um domingo, dia sem dentes, somente a gengiva nua e amolecida sorrindo pra nós. Enquanto toma conta das suas minúsculas quinquilharias artesanais, diz com uma voz esquecida de emudecer.

- Eu também seria escritor se soubesse como. Eu escreveria muitíssimo se pudesse, montes e montes de páginas, escreveria horrores, até transbordar, uma puta de uma overdose de palavras pra todos os cantos, até não restar mais nada o que dizer! Mas, olha, não sei, acho que vocês são mesmo é loucos, vocês que se dizem escritores, porque escrever é também falar sozinho, não é? Vocês falam e falam, mas vocês não dizem muita coisa, agora mesmo, eu estou aqui falando enquanto você não diz nada e só quem me ouve é o pote de tinta, o ex-macarrão que um dia já esteve nesse mundo e agora é pura massa queimada na panela, você que é você não está nem por aqui, você está é todo pra dentro que eu posso perceber, todo pra dentro, sem palavra nenhuma pra me dar. Sobre a madeira crua, a tinta azul petróleo, vai ficar bonito, vai fazer alguém feliz esse porta-retrato enfeitado, mesmo que ninguém o compre, ele já nasce com a possibilidade de se doar pras utilidades alheias e isso por si só já é bastante, não é? No fundo, no fundo, o que a gente faz é sempre uma tentativa de se dar um pouco mais... e consegue?

Pois é, eu sei, estou falando demais, isso é pra você ver o que as palavras fazem, umas vão puxando as outras, fazem a gente entrar num ciclo e no fim das contas, era tudo artimanhas, pois nada de fato foi dito, estamos sempre patinando na própria voz. Por isso mesmo que eu gosto das tintas, nada é prometido, nada chega a lugar nenhum, apenas uma superfície cobrindo a outra e fica tudo por isso mesmo, inclusive, pensando bem, se eu pudesse escrever, talvez eu preferisse não escrever nada.
Assim como preferi não sair e não ganhar meu salário mensal, mas sim percorrer os outros caminhos que as pessoas desmerecem mas existem e existem para serem caminhados.
Já no prato está o frango, plano B pros desvios naturais do percurso, ele comendo como quem rumina, ele falando como quem vomita, cheiro de tinta pela casa inteira.
E eu não preciso de uma caneta e um papel pra encontrar meus sentidos, amor, vez em quando a gente prefere não fazer as coisas simplesmente porque a gente pode preferir, a gente pode não fazer, e o poder não fazer é tudo, mesmo quando não muda nada.
Eu mesmo posso largar agora esse pincel colorido de laranja, esse futuro porta-retrato que um dia vai segurar a marca da vida de uma outra pessoa, eu posso largar e ir embora, sair por aí, ir ao parque, eu posso, e é o poder que me situa, você entende?
Às vezes, confesso, fico me perguntando e só te digo isso porque sei que você não ouve, se ouvisse realmente não te daria confissões, eu fico me perguntando se essas nossas liberdades não são um disfarce pro nosso querer tão desesperado, será que não?
Será que eu penso que posso apenas pra achar que, se faço, é porque quero, enquanto no fundo a verdade é que eu preciso?
E, meu Deus, olha só pra você, ninguém nem diz que é um escritor importante, centenas de textos publicados, prêmio sei lá da onde, ninguém diz, você comendo esse feijão e essa linguiça no domingo, todo nu das palavras, parecendo até um mudo, até um muro, ninguém diz!
Eu mesmo também não digo é nada, pra mim você é um homem quase anjo.
Se quiser me deixar, já disse, tenho aqui as minhas artes, necessárias ou não, tenho aqui minhas imposições, mais te peço que leve, essas mil páginas espalhadas pela casa, leva essas letras, para que nunca se esqueça de mim.
Pensando melhor, ainda bem que não posso escrever, que desespero seria se eu pudesse… aliás, melhor ainda que eu nem saiba como escrever, se soubesse, seria obrigado a desaprender. Porque seria obrigado a escrever diária mente sobre a nossa historia.
Eu prefiro ficar aqui pintando você, eu. Ah nossa vida.
Espera!
Você ainda não entendeu não é?
Eu te amo e sempre irei te amar.
♫ Let your memories grow stronger and stronger
'Til they're before your eyes

Eu me demito. " aqui pro ce ..i..''



Eu queria ser poeta. Mais sou apenas um contador de historias.

Parado em frente à porta, ele sentiu de novo aquela coisa gelada virando, revirando dentro do estômago.
Esticou a mão direita e em seguida puxou o braço de volta, recuou um passo, como se a maçaneta fosse um bicho pronto para o bote. Já tinha hesitado mil vezes antes de chegar até ali, pensado mil vezes, ensaiado mil vezes.
Pensado e ensaiado.
Ontem mesmo, depois de ter repetido consigo a fala, parou diante da porta, juntou os fiapos de coragem para bater, aprumou-se, respirou fundo… e não bateu.
Antes que alguém perguntasse o que fazia ali, voltou para a mesa sem graça na sala sem graça onde um relatório sem graça para as cinco, urgente o esperava.
Mas hoje não, hoje decidiu que iria até o fim. Respirou fundo e, usando como combustível a indignação que sentia consigo mesmo por ser assim tão covarde, bateu. Sempre assim: “para as cinco, urgente!”, “para daqui cinco minutos, urgente!”, “para ontem, urgente!”. Tudo era urgente.
Mas desde uns dias atrás que ele sentia que viver era ainda mais urgente, viver era urgentíssimo.
Empurrou a porta, pediu licença, entrou e fechou-a atrás de si. A maçaneta não mordia, afinal.
Sentou-se.
As mãos suavam, mas ele soube disfarçar bem. A voz saiu firme, muito melhor do que esperava. O sujeito do lado de lá da mesa largou o mouse, deixou um pouco de lado a tela de e-mails. Estava se saindo bem, afinal.
Então ele pediu demissão.
Sentado na sua cadeira de diretor, a única confortável da empresa, o chefe não entendeu, perguntou se era insatisfação com salário, ofereceu um pouco mais, vergonhosamente pouco mais.
Mas ele não estava aberto a negociações, estava firme no que havia decido, o chefe não pôde fazer nada a não ser concordar. A tela piscava novos e-mails caíam na caixa de entrada.
Era já perto do dia trinta e eles agilizaram tudo para o dia primeiro. Começaria o mês desempregado.
Voltou para a sala, onde não disse nada. Não tardou muito, alguém voltou da chefia e espalhou a notícia da demissão. Ninguém entendeu o porquê ”é salário?”, mas ele nem esperava mesmo que entendessem.
Era funcionário antigo da casa, era funcionário exemplar. Abriu suas planilhas, terminou um relatório urgente para as cinco e meia. Voltou para casa já levando algumas coisas das gavetas, para adiantar.
Dia trinta, despediu-se. Lavou a caneca pela última vez, decidiu deixá-la na copa para quem quisesse o resto das coisas e pastilhas para garganta, uns cartões, o carregador do celular coube numa sacola de mercado.
Sem alarde, sem choradeira, sem fotografias, sem almoço especial. Na cadeira de diretor, o chefe entrevistava um candidato. Já no dia seguinte, começou a procurar. Passou as semanas seguintes olhando classificados, fazendo contas.
Não tinha pressa e só fechou negócio quando achou exatamente o que sonhava. Daí para mudar-se para o sítio foi só questão de tempo.
E foi viver.
Está difícil segurar a ansiedade, as verduras demoram a crescer e nem sinal ainda dos morangos.
Mas logo ele colhe a primeira safra.

Sobre a desistência de um suicida.



Eu queria ser poeta. Mais sou apenas um contador de historias.

É muito mais do que mistério. É a impossibilidade acontecendo bem diante de olhos incrédulos e bestificados.
O inimaginável, a maldição sem explicação.
É como o vento que ninguém vê, mas sabemos que está ali.
Não é questão de crença ou credo. É questão de estar simplesmente ali, vivo, injustificável, mas real.
Estamos respirando algo, mas não vemos o que. Confiamos que aquilo é bom, mas não sabemos porque. Nos mantêm vivos, sem ter pra que.
Acreditamos naquelas migalhas de verdade, naquilo que chamamos de ‘’ É porque é, e cale a boca.’’  
Eu não consigo e nem posso não acreditar. Mas eu gostaria. Eu gostaria de dizer que isso tudo não passa de ilusão, um truque de mágica barato. Mas o ilusionista morre e a charada atravessa gerações.
Onde está o segredo, o coelho entrando na cartola previamente furada, o homem na platéia escolhido aleatoriamente que já sabia e decorou tudo o que precisava fazer?
Eu queria que alguém arrancasse o meu coração doente de seu refúgio e dissesse que toda essa dor é uma mentira como o bicho-papão.
Há tempos eu consigo dormir no escuro, mas por poucos anos eu sempre olhava o que estava debaixo da cama. A mentira era real, o medo estava dormindo comigo.
O que se passa, então, poderia ser uma segunda infância.
Uma mentira que se repete.
Uma mentira bonita que atravessou décadas, milênios e parou em mim, crescido, forte o bastante para não temer aquilo que só existe numa imaginação fértil e fétida.
Eu queria ser maior que tudo isso. Comprovar cientificamente que o que bate em meu peito me mantém vivo e só.
Como o ar, que eu também não vejo, mas sinto. E não consigo. Não consigo balbuciar uma só palavra sem que o peso da realidade me ponha encolhido debaixo do cobertor, temendo um monstro vazio, algo irreal que dói e latina, que arranca e apodrece todas as raízes dentro de mim que mantive em cativeiro, em segredo.
Como algo pode continuar doendo, se não existe?
Ou melhor, se nunca existiu.
Nada pode criar vida sem que algo ou alguém o tenha criado. Ninguém nunca me disse que o bicho papão teve mãe. Ninguém nunca me disse que Papai Noel já foi um feto. Parece que a mentira já veio de barba feita.
É assim que eu sinto.
As colunas invisíveis são ainda piores e mais maciças do que qualquer espécie de concreto, porque elas nunca são derrubadas.
Esse sofrimento todo é como as larvas que surgem dentro de um pote de macarrão fechado, como fungos que povoam os pães trancados, completamente trancados, dentro da geladeira.
Por que dói?
Eu só sei que dói.
Até que se prove o contrário, que se veja o ar, que a máscara caia, o que me mantém vivo, continuará doendo como a tristeza que me dói.
E talvez seja isso mesmo e eu só não queira admitir. Se eu parar de mentir, se eu disser que não está tudo bem, eu morro.
Como morreria se parasse de respirar.
Respirar aquilo que eu não vejo, não ouço, mas sinto.
O coração dolorido e machucado é a resposta que eu não quero ver.
Eu só estou vivo porque a tristeza me permite viver.

Sobre morte e vida, formigas e o poder de tirar uma vida!






Eu queria ser poeta. Mais sou apenas um contador de historias.

Agora, vamos contar uma história…
Uma história, algo menor que uma fábula, pouco interessante para quem assoprou as dez primeiras velas.

Ninguém presta atenção em formigas, a menos que estejam amontoadas, que façam cócegas em dedos desatentos ou levem seu chocolate embora.
Eu não tinha nenhum chocolate e minhas mãos estavam muito bem protegidas. As lágrimas escorriam. Nada que mereça uma autopiedade. Apenas a necessidade de molhar os olhos em uma madrugada que evaporava quase tudo ao meu redor.
Ao meu lado um ponto se mexia fracamente. Provavelmente os passeios até o outro lado da cama numa insônia inquietante que se assemelhava com chamas incendiando o meu corpo renderam-me uma companhia menor que a minha solidão.
Era um sopro de vida turvo, virado do avesso, com patas e antenas em movimento fraco, um córrego sem correnteza, uma gota d’água descendo a ladeira.
Tradução para uma formiga ferida em dia de luto interno.

Virei-me, pois queria ver de perto o que em outro momento, nas asas da banalidade do cotidiano, eu jamais teria prestado atenção, como vocês provavelmente não, a menos que estivessem como eu, implorando por um sopro de poesia qualquer que não viesse de vossas mãos.
Uma formiga não seria o mais adequado para chamar de poesia. Uma formiga morrendo é pouco. Uma formiga morrendo ao lado do assassino, continua sendo uma formiga. Assassino, eu? Assassino de quem? Ora, qualquer um poderia ter esmagado. Mas não era qualquer um. E era uma formiga, apenas uma. Aquela que faltaria com comida no formigueiro, sem falta, porque de falta de formiga esse mundo não sofre.
O abdômen estava levemente amassado, indo para frente e para trás, num esforço para virar-se. A dor era visível. As mandíbulas abriam-se e fechavam-se, numa luta cada vez mais perdida.
Uma ruga no meu rosto. Vá, vire-se. Não desista. Você consegue. Você está ferida, mas você consegue. Você aguenta dez vezes o peso do próprio corpo, não é isso que dizem?

Meu corpo sem alma não vale uma grama.
Espere um momento.
Eu estava mesmo torcendo por uma formiga?
Naquele ridículo momento, a vida daquele ponto preto valia alguma coisa. Valia mais do que a minha vida. Eu, chorando, naquela madrugada tenebrosa, enquanto estava protegido de frio e fome embaixo da coberta, cheio de dor, cheio de ferida, cheio de mim e vazio como o vácuo da física.
Tudo o que ela precisava fazer era parar de se mexer. A morte viria mais rápida, o sofrimento teria fim.
O pensamento mudou.
Desista. Chega. Pare com isso. A vontade que tive foi de esmagá-la com as unhas. Acabar com toda aquela dor de uma vez.
Aproximei o dedo, cutuquei-a, ela reagiu docilmente, tentando usar o meu dedo para virar-se, mesmo que suas patas já não respondessem mais.
Tola...
Eu não estou tentando te ajudar. Eu quero te matar. E você vai me agradecer por isso. “Você é muito novo para sofrer assim”.
Você vai me agradecer por tirar o gosto da vida na sua boca.
“A dor é temporária”.
Você vai implorar para que eu acabe com essa vontade de viver. Viver pra que se você só vai trabalhar?
“Todos vamos morrer um dia, aproveite a sua vida”.
Eu vou acabar com você, como esse sofrimento está acabando comigo. Sem culpa.
“Vai ficar tudo bem”.
E se fosse eu? E se fosse eu de abdômen pra cima, abdômen ferido, querendo morrer e desejando a vida? Eu teria a mesma força? Eu teria a mesma garra de me apoiar nos dedos de alguém com o golpe da misericórdia em mãos? Ou eu desistiria?
Ela já estava morta. Era só o impulso que fazia as antenas se mexerem. Onde fora parar o meu impulso?
A pergunta, na verdade é: Onde fora parar o estímulo do mundo inteiro?
Onde estava o estímulo e a irracionalidade que me fariam levantar daquela névoa e dizer a mim mesmo: Você consegue ser mais forte do que isso. Você consegue pisar em si mesmo e depois usar teus próprios pés para se reerguer, mesmo que morto você já esteja, porque teu corpo reage. Você não irá desistir tão fácil assim.
Mas minha carne sucumbira sem antes lutar. O choro aumenta. Eu podia sentir a força dentro de mim amassando meus órgãos como amassei aquela pobre formiga, sem querer.
Usei o que eu tinha de melhor para me destruir. Usei meus pés, minhas mãos, usei meu medo da morte, usei tudo isso para ser mais fácil.
Vamos acabar logo com isso, eu disse. Vamos encurtar o caminho.
Mas eu não sou tão pequeno para ser esmagado por unhas alheias. Às vezes, a fragilidade é uma dádiva. Não há mais nada o que fazer. Coloquei uma folha de papel embaixo do inseto e coloquei-a no chão, onde outras formigas ignoravam o pequeno funeral.
Ela continuava se mexendo, lutando, contradizendo a natureza, mandando pro inferno a minha fraqueza.
Lavei o rosto…
Isso dará um belo texto.
Caderno e caneta.
Eu preciso escrever sobre isso. Corri para o quarto, com a cabeça na filosofia que iria nascer a partir da luta de uma formiga para manter-se viva, quando senti embaixo dos meus pés a tragédia renascer.
Uma formiga morta, dessa vez de abdômen estraçalhado.
A tristeza estava sem companhia. A gramática é mais importante que a matéria-prima, que tipo de idiota eu sou, para considerar mais importante o baú do que o tesouro?
Que idiota eu sou, repito?
Quão humano eu sou…? Quão desprezivelmente humano e fraco eu sou?
A dor e a morte, a liberdade e a vida, a formiga, a amizade, o sentimento, a força, o papel e a caneta.
É tudo questão de prioridade.
Qual é a sua prioridade agora?
Ora, dane-se. Era só uma formiga.



Viva o Livre!

Declaro aberto os portões desta Sociedade Alternativa. Sintam-se platéia de um palco cheio de personagens que nem eu sei de onde vieram.
A única coisa que sei é que eles estão dentro de mim e que vão começar a aparecer.

Melhor se acomodar, que a cortina já abriu...

Curiosidades..

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"Eu acho legal o pessoal acessar o blog e não deixar um recadinho… É massa, é a mesma coisa que você cagar e não puxar a descarga… Porque querendo ou não você usou aquilo, pode ser num momento de merda, mas usou certo? Não custa deixar um recadinho falando… legal…"

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